Há alguns dias viajando pelo Mato Grosso do Sul estive em Corumbá/MS, para fazer um rápido atendimento na unidade, ajustando alguns problemas, cheguei na quinta-feira e fui embora na sexta-feira. Quando estava no aeroporto fui abordado por policiais federais que solicitaram que eu me dirigisse a sala deles para “averiguação”, eis que me dirigi até lá e depois disto foram os 10 minutos mais tensos de minha vida, apesar de não ter perdido a calma e ter agido de forma natural, afinal quem não deve não teme, como já dizia o ditado, confesso que eu estava muito tenso e desconfortável.
Não sei se é pelo tipo truculento de atendimento, onde você não é inocente, é uma inversão dos direitos humanos, pelo que sabemos somos inocentes até que se prove o contrário, mas não ali, nesta situação você é suspeito até que você prove o contrário. Eles fazem perguntas, revistam sua mala, verificam seus documentos, ficam repetindo perguntas esperando que você caia em uma contradição, é uma sensação de invasão, de perda de privacidade, uma sensação de estar a mercê dos acontecimentos, como se um filme estivesse passando na sua frente e você não pudesse interferir, pois o final já foi escrito, decidido por alguém.
Eu estava em uma cidade de fronteira, uma cidade que tem problemas, relacionados ao tráfico, ao contrabando, eu estava em um local em que não conheço muitas pessoas, e nos dias de hoje a população tem tanto medo da polícia quanto medo dos criminosos, veja no Rio de Janeiro/RJ, recentemente quase 100 policiais foram presos por ligação com o tráfico e crime organizado, perdemos a referência de autoridade e segurança pública em nosso país.
Além de todos estes detalhes ainda tem o quesito “visual”, eu tenho cabelo comprido, uso barba, ando com roupas leves, ando com uma bolsa, é um estilo pouco usual, neste dia estava com uma bata que eu trouxe de Salvador e uma calça cargo, há quem diga que é um estilo meio “rippie”, enfim, acredito que por ter este estilo tenha sido abordado, o que caracteriza na minha opinião preconceito. Enfim como quem não deve não teme apesar de todas as checagens e desconfortos fui liberado, mas isto não me livrou dos olhares fulminantes dos agentes, como se estivessem revoltados por não terem encontrado nada de errado comigo, neste momento quase pude ler seus pensamentos: - “Esse ai tem coisa… tá devendo… na próxima a gente te pega” , pode ser ilusão da minha cabeça, mas foi como me senti ao sair de lá. Quando voltei a fila o pessoal estava acuado com minha presença, como seu eu realmente fosse um bandido ou criminoso, isto foi constrangedor, em todos os aspectos, teve até uma senhora, estilo “perua” que não queria deixar eu voltar para o meu lugar, eu disse simplesmente para ela ir lá na PF reclamar, foi então que ela trocou de fila.
Ontem estava na mesma cidade com uma colega de trabalho, eu fui abordado novamente pelo mesmo policial, ele perguntou: - “Eu te conheço?” Eu respondi que sim, que ele já havia me levado para conversar em sua salinha no aeroporto, mas falei numa boa, ele aparentemente lembrou de mim foi levando outra pessoa da fila para a sala. Quando estávamos terminando o check-in a minha colega foi abordada e levada para a sala, quando voltou ela disse que a primeira coisa que o agente perguntou foi: “Você está com o cabeludo?” Ela respondeu que sim e infelizmente passou pelos mesmos constrangimentos que eu passei na última viagem.
Fazendo uma reflexão, os agentes são jovens, parece que novos na PF, talvez do último concurso, querem mostrar serviço, ali é um local complicado, é fronteira, eu entendo de alguma forma, porém a questão de serem jovens foi o que me deixou mais preocupado, se são jovens o treinamento deles é recente, será que no século XXI ainda existe um treinamento que oriente esses agentes a serem truculentos, mal-educados, será que existe um treinamento que os oriente a nos deixar constrangidos?
Em nenhum momento fui orientado sobre meus direitos, sobre o que posso ou não posso fazer, como devo proceder, simplesmente entrego minha vida na mão de pessoas que não conheço, e na maioria dos casos a gente fica quieto omisso a abusos com medo que estas pessoas possam de alguma forma nos complicar.
Estou realmente exausto de viver refém de uma sociedade a qual nos faz temer nossas próprias autoridades, estou exausto de viver em uma sociedade cheia de preconceitos.
Fica aqui o desabafo e a seguinte pergunta, será que devemos recorrer a nossos direitos ou ficar quietos nesta situação, devemos exercer nossa cidadania, exigir respeito e tratamento digno ou devemos nos omitir para nossa própria segurança?
Eu me faço estas perguntas todos os dias.
[]’s
Guto
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