No dia 8 de Março dispense a rosa
segunda-feira, março 9th, 2009
Ontem foi o dia internacional da mulher, por uma questão de costume e cordialidade, muitos de nós homens damos os parabéns para as mulheres neste 8 de março, alguns entregam rosas, participam de passeatas, fazem isto sem nem ao menos saber o porque deste ato, aliás a grande maioria não sabe mesmo as razões de estarem se expressando daquela forma. O fato é que eu mesmo o fiz ontem 2 vezes e cheguei até a enviar uma mensagem no twitter parabenizando o movimento feminista pela sua incessante luta para construir uma sociedade mais justa e coerente, mas hoje eu me perguntei: – “O que é relevante nisto tudo, neste dia, nestes atos?”
Eu sempre fiquei muito encucado com este dia internacional da mulher, eu nunca enxerguei diferenças entre estes lados, claro isto por que eu sou jovem, nasci praticamente depois de 1 século do início desta luta, nasci em um país que se encontrava no final do regime militar, não sofri a ditadura e graças a luta de muitos eu já nasci livre, com direito de me expressar e portando o faço agora.
Eu cresci em um estado pequeno, provinciano, e talvez tenha sido a forma como eu fui criado que me ofereceu esta percepção de igualdade, o fato é que ontem em São Paulo eu peguei o metrô de Santana para o centro da cidade para que eu pudesse me despedir de alguns amigos e amigas que estiveram no ato de repúdio ao editorial da Folha sobre a #ditabranda, ato que ocorreu neste sábado no dia 07 de março de 2009, durante o transporte eu vi e pude perceber muitas pessoas se dirigindo para inúmeras passeatas na cidade, pessoas conversando, alegres, contentes, mas não consegui ver e ouvir alguém falando sobre a história, sobre o movimento feminista, poucos ali sabem que há mais de um século corajosas mulheres pelo mundo todo iniciaram a luta pelo os seus direitos, direitos estes como votar, trabalhar, direito ao divórcio, direito de se preservar, direito de cuidar de sua saúde e de seu corpo, direito de ser livre e independente, direito de ser tratada com igualdade, direitos fundamentais que historicamente foram cerceados por milênios pois a mulher era tida como propriedade, primeiro do pai, depois do marido, é como se um ser humano fosse um objeto.
Mesmo hoje em 2009 vivemos em um país extremamente machista, aliás não em só em um país, mas em um mundo, você pode perceber isto diariamente, seja assistindo programas na televisão, seja ouvindo rádios, trabalhando, andando na rua, vivendo o seu dia-a-dia, a todo o momento, em todo o lugar é possível perceber que apesar de toda a luta destas mulheres o machismo ainda é uma constante no mundo. No meu pequeno estado, estado que acolhe 70% do pantanal brasileiro, cresci e vi como era a relação e o comportando entre os casais no pantanal, um local ermo, sem leis, sem fronteiras, vivendo o seu próprio tempo, eu achava aquilo tudo um absurdo, a forma de tratamento, o descaso, a submissão, e tentava entender e interferir, mas eu era uma criança e não podia fazer muito, em conversas com o meu pai e minha mãe eles sempre procuraram me educar e esclarecer que aquilo não um tratamento coerente, que ali não havia respeito, havia apenas submissão, medo, eu era muito jovem e via coisas acontecerem próximo a mim e tentava traçar um comparativo com da relação destes casais e a relação dos meus pais, relação onde havia um tratamento entre pessoas iguais, com muito respeito e admiração, por várias vezes tentei entender por quê isto não se estendia aos casais do pantanal, mas como criança não consegui na época chegar a uma conclusão. Isto que relato ocorreu nas idas das décadas de 80 e início da década de 90, mas não foi só isto, já adolescente vi barbaridades ocorrerem na cidade em que eu morava, mulheres apanhando na rua, em bares, espancamentos, humilhações, submissão, fatos graves, em algumas ocasiões em que presenciei de perto e pude interferir levei mulheres, vítimas de agressão e abuso para o hospitais e senti o preconceito e o descaso até nestes locais de atendimento público, médicos e enfermeiros que faziam piadinhas naquele complicado momento, certa vez ouvi um médico conversando com o enfermeiro: – “O que será que ela fez para tomar porrada, será que chifrou o cara?” , parecia para eles que o agressor era a vítima defendendo a sua honra, e a vítima a agressora, absurdo, neste caso em específico eu fui testemunha ocular em ocorrência na delegacia da mulher, conseguiram prender o agressor em flagrante e levei a vítima para casa de familiares, mas é um caso raro, as pessoas não se envolvem e todas estas barbaridades são sempre abafadas e esquecidas por quase todos na cidade, mas as marcas, as cicatrizes, sejam físicas ou psicológicas, estas eu sei que estão naquelas mulheres até hoje, digo isto por que em um adolescente e depois em um jovem adulto, aquilo deixou profundas marcas que hoje já na faixa dos 30 anos ainda oferecem um horripilante frio na espinha quando repasso tais memórias.
Depois de tanto ver, ouvir e depois de sentir todas estas duras memórias, não tenho como deixar de pensar na hipocrisia da sociedade, principalmente da grande maioria dos homens no dia internacional da mulher, se eles estivessem celebrando as conquistas de uma luta centenária, se eles estivessem dispostos a construir uma sociedade justa e igualitária, o tom deste post certamente seria outro, porém na minha opinião este tem se tornando um ato em que maioria das pessoas simplesmente o fazem sem entender o sentido e o simbolismo que uma luta como esta deveria expressar, chegando a ser um desrespeito àquelas em que desejam homenagear.
Por isto tudo o que eu disse, e por ter um profundo respeito com qualquer ser humano, transcrevo o texto abaixo por entender que ele traduz muito do que eu penso, muito do acontece todos os dias, muito do eu vi, vejo e repudio.
O texto abaixo foi escrito por Marjorie Rodrigues e o manifesto organizado pela Comunidade Feminismo e Libertação
No dia 8 de Março dispense a rosa
“Dia 8 de março seria um dia como qualquer outro, não fosse pela rosa e os parabéns. Toda mulher sabe como é. Ao chegar ao trabalho e dar bom dia aos colegas, algum deles vai soltar: ”parabéns”.
Por alguns segundos, a gente tenta entender por que raios estamos recebendo parabéns se não é nosso aniversário (exceção, claro, à minoria que, de fato, faz aniversário neste dia). Depois de ficar com cara de bestas, num estalo a gente se lembra da data, dá um sorriso amarelo e responde “obrigada”, pensando: “mas por que eu deveria receber parabéns por ser mulher?”.
Mais tarde, chega um funcionário distribuindo rosas. Novamente, sorriso amarelo e obrigada. É assim todos os anos. Quando não é no trabalho, é em alguma loja. Quando não é numa loja, é no supermercado. Todos os anos, todo 8 de março: é sempre a maldita rosa.
Dizem que a rosa simboliza a “feminilidade”, a delicadeza. É a mesma metáfora que usam para coibir nossa sexualidade — da supervalorização da virgindidade é que saiu o verbo “deflorar” (como se o homem, ao romper o hímen de uma mulher, arrancasse a flor do solo, tomando-a para si e condenando-a – afinal, depois de arrancada da terra, a flor está fadada à morte). É da metáfora da flor, portanto, que vem a idéia de que mulheres sexualmente ativas são “putas”, inferiores, menos respeitáveis.
A delicadeza da flor também é sua fraqueza. Qualquer movimento mais brusco lhe arranca as pétalas. Dizem o mesmo de nós: que somos o “sexo frágil” e que, por isso, devemos ser protegidas. Mas protegidas do quê? De quem? A julgar pelo número de estupros, precisamos de proteção contra os homens. Ah, mas os homens que estupram são psicopatas, dizem. São loucos. Não é com estes homens que nós namoramos e casamos, não é a eles que confiamos a tarefa de nos proteger. Mas, bem, segundo pesquisa Ibope/Instituto Patricia Galvão, 51% dos brasileiros dizem conhecer alguma mulher que é agredida por seu parceiro. No resto do mundo, em 40 a 70 por cento dos assassinatos de mulheres, o autor é o próprio marido ou companheiro.Este tipo de crime também aparece com frequência na mídia. No entanto, são tratados como crimes “passionais” – o que dá a errônea impressão de que homens e mulheres os cometem com a mesma frequência, já que a paixão é algo que acomete ambos os sexos. Tratam os homens autores destes crimes como “românticos” exagerados, príncipes encantados que foram longe demais. No entanto, são as mulheres as neuróticas nos filmes e novelas. São elas que “amam demais”, não os homens.
Mas a rosa também tem espinhos, o que a torna ainda mais simbólica dos mitos que o patriarcado atribuiu às mulheres. Somos ardilosas, traiçoeiras, manipuladoras, castradoras. Nós é que fomos nos meter com a serpente e tiramos o pobre Adão do paraíso (como se Eva lhe tivesse enfiado a maçã goela abaixo, como se ele não a tivesse comido de livre e espontânea vontade). Várias culturas têm a lenda da vagina dentata. Em Hollywood, as mulheres usam a “sedução” para prejudicar os homens e conseguir o que querem. Nos intervalos do canal Sony, os machos são de “respeito” e as mulheres têm “mentes perigosas”. A mensagem subliminar é: “cuidado, meninos, as mulheres são o capeta disfarçado”. E, foi com medo do capeta que a sociedade, ao longo dos séculos, prendeu as mulheres dentro de casa. Como se isso não fosse suficiente, limitaram seus movimentos com espartilhos, sapatos minúsculos (na China), saltos altos. Impediram-na que estudasse, que trabalhasse, que tivesse vida própria. Ela era uma propriedade do pai, depois do marido. Tinha sempre de estar sob a tutela de alguém, senão sua “mente perigosa” causaria coisas terríveis.
Mas dizem que a rosa serve para mostrar que, hoje, nos valorizam. Hoje, sim. Vivemos num mundo “pós-feminista” afinal. Todas essas discriminações acabaram! As mulheres votam e trabalham! Não há mais nada para conquistar! Será mesmo? Nos últimos anos, as diferenças salariais entre homens e mulheres (que seguem as mesmas profissões) têm crescido no Brasil, em vez de diminuir. Nos centros urbanos, onde a estrutura ocupacional é mais complexa, a disparidade tende a ser pior. Considerando que recebo menos para desempenhar o mesmo serviço, não parece irônico que o meu colega de trabalho me dê os parabéns por ser mulher?
Dizem que a rosa é um sinal de reconhecimento das nossas capacidades. Mas, no ranking de igualdade política do Fórum Econômico Mundial de 2008, o Brasil está em 10oº lugar entre 130 países. As mulheres têm 11% dos cargos ministeriais e 9% dos assentos no Congresso — onde, das 513 cadeiras, apenas 46 são ocupadas por elas. Do total de prefeitos eleitos no ano passado, apenas 9,08% são mulheres. E nós somos 52% da população.
A rosa também simboliza beleza. Ah, o sexo belo. Mas é só passar em frente a uma banca de revistas para descobrir que é exatamente o contrário. Você nunca está bonita o suficiente, bobinha. Não pode ser feliz enquanto não emagrecer. Não pode envelhecer. Não pode ter celulite (embora até bebês tenham furinhos na bunda). Você só terá valor quando for igual a uma modelo de 18 anos (as modelos têm 17 ou 18 anos até quando a propaganda é de creme rejuvenescedor…). Mas mesmo ela não é perfeita: tem de ser photoshopada. Sua pele é alterada a ponto de parecer de plástico: ela não tem espinhas nem estrias nem olheiras nem cicatrizes nem hematomas, nenhuma dessas coisas que a gente tem quando vive. Ela sorri, mas não tem linhas ao lado da boca. Faz cara de brava, mas sua testa não se franze. É magérrima (às vezes, anoréxica), mas não tem nenhum osso saltando. É a beleza impossível, mas você deve persegui-la mesmo assim, se quiser ser “feminina”. Porque, sim, feminilidade é isso: é “se cuidar”. Você não pode relaxar. Não pode se abandonar (em inglês, a expressão usada é exatamente esta: “let yourself go”). Usar uma porrada de cosméticos e fazer plásticas é a maneira (a única maneira, segundo os publicitários) de mostrar a si mesma e aos outros que você se ama. “Você se ama? Então corrija-se”. Por mais contraditória que pareça, é esta a mensagem.
Todo dia 8 de março, nos dão uma rosa como sinal de respeito. No entanto, a misoginia está em toda parte. Os anúncios e ensaios de moda glamurizam a violência contra a mulher. Nas propagandas de cerveja e programas humorísticos, as mulheres são bundas ambulantes, meros objetos sexuais. A pornografia mainstream (feita pela Hollywood pornô, uma indústira multibilionária) tem cada vez mais cenas de violência, estupro e simulação de atos sexuais feitos contra a vontade da mulher. Nos videogames, ganha pontos quem atropelar prostitutas.
Todo dia 8 de março, volto para casa e vejo um monte de mulheres com rosas vermelhas na mão, no metrô. É um sinal de cavalheirismo, dizem. Mas, no mesmo metrô, muitas mulheres são encoxadas todos os dias. Tanto que o Rio criou um vagão exclusivo para as mulheres, para que elas fujam de quem as assedia. Pois é, eles não punem os responsáveis. Acham difícil. Preferem isolar as vítimas. Enquanto não combatermos a idéia de que as mulheres que andam sozinhas por aí são “convidativas”, propriedade pública, isso nunca vai deixar de existir. Enquanto acharem que cantar uma mulher na rua é elogio , isso nunca vai deixar de existir. Atualmente, a propaganda da NET mostra um pinguim (?) dizendo “ê lá em casa” para uma enfermeira. Em outro comercial, o russo garoto-propaganda puxa três mulheres para perto de si, para que os telespectadores entendam que o “combo” da NET engloba três serviços. Aparentemente, temos de rir disso. Aparentemente, isso ajuda a vender TV por assinatura. Muito provavelmente, os publicitários criadores desta peça não sabem o que é andar pela rua sem ser interrompida por um completo desconhecido ameaçando “chupá-la todinha”.
Então, dá licença, mas eu dispenso esta rosa. Não preciso dela. Não a aceito. Não me sinto elogiada com ela. Não quero rosas. Eu quero igualdade de salários, mais representação política, mais respeito, menos violência e menos amarras. Eu quero, de fato, ser igual na sociedade. Eu quero, de fato, caminhar em direção a um mundo em que o feminismo não seja mais necessário.
…Enquanto isso não acontecer, meu querido, enfia esta rosa no dignissímo senhor seu ** . “
Autoria: Marjorie Rodrigues / Organização: Comunidade Feminismo e Libertação / Saiba mais sobre a campanha.










